Outra vida
Luis Fernando Verissimo
Ela disse:
- Fiz uma descoberta terrível.
Ele disse:
- Ahn?
Ela disse:
- Descobri que a vida que eu vivi não era a minha.
Ele, sem desviar os olhos da televisão:
- Como assim?
- Minha vida, entende? A vida que eu vivi até hoje. Não era a minha. Ele olhou para ela:
- Em que sentido?
- Eu simplesmente vivi a vida de outra pessoa. Sempre tive esta estranheza com as coisas que me aconteciam. Com os meus gostos, por exemplo.
Nunca entendi o meu gosto por, sei lá, fígado. Beterraba. Quem é que gosta de beterraba? Tem loucura por beterraba? Eu tenho. Mas agora entendo.
Não era eu. Eu estava vivendo a vida de outra pessoa. Meus gostos são de outra pessoa. Minhas decisões, minhas opiniões, tudo o que me aconteceu até agora...
Ele examinou o rosto da mulher por algum tempo, depois voltou os olhos para a televisão. Talvez fosse melhor deixar ela esgotar aquela ideia sozinha. Ela continuou:
- Você, por exemplo. Eu nunca casaria com um homem como você.
- Sei.
- Só uma pessoa que adora beterraba casaria com um homem como você.
- Está certo.
- E, meu Deus! Acabei de me dar conta...
- O quê?
- Deve ter outra pessoa vivendo a minha vida.
- Sei.
- Pense só. Neste exato momento, tem uma pessoa no mundo vivendo a minha vida enquanto eu vivo a dela. Uma pessoa com os meus gostos, com a minha biografia certa, com o marido que eu escolheria. E ela deve ter a mesma sensação de estranheza, de...
- Meu bem...
- O quê?
Ele indicou a televisão com as duas mãos e disse:
- Precisa ser durante o Jornal Nacional?
Ela saiu da sala pisando forte, furiosa. Pensando: na sua vida de verdade aquilo nunca aconteceria.
O crítico
Ele escrevia sobre gastronomia com um pseudônimo e fazia questão de se manter incógnito. Era um homem sério e escrupuloso que preferia não ser reconhecido, ou constranger ninguém, nos restaurantes que visitava para comentar depois. Tão sério e escrupuloso que adquiriu uma boa reputação como o crítico de restaurantes que todo o mundo lia para saber onde ir ou o que evitar, pois seus critérios eram justos e confiáveis. Assim como elogiava o que era bom, não perdoava o menor deslize, na comida ou no serviço. E acabou tornando-se uma celebridade, contra a vontade. Sua foto apareceu em revistas e colunas sociais. Ele passou a ser identificado e a receber tratamento especial nos restaurantes onde ia, apesar dos seus protestos. E decidiu usar disfarces.
Óculos, bigode e barba postiços, tudo para continuar anônimo e parecer um cliente qualquer. E, tomado de uma certa psicose do desmascaramento, desconfiado de que mesmo dissimulado era reconhecido, começou a recorrer a disfarces cada vez mais elaborados. Turbantes. Enchimentos na roupa, para parecer mais gordo.
Uma vez, até um tailleurzinho preto e uma peruca loira. Na sua obsessão em não ser notado, tornava-se cada vez mais conspícuo. E um dia, antes da sua primeira visita a um restaurante recém-inaugurado do qual diziam maravilhas, procurou um maquiador profissional de teatro e pediu que lhe fizesse outra cara. Uma cara que assegurasse o seu anonimato absoluto. A cara com que sentou à mesa do restaurante novo, e comeu com crescente entusiasmo, tanto entusiasmo que, ao se debruçar para repetir uma colherada do magnífico "gateau au chocolat" com molho quente da sobremesa, seu nariz, amolecido pelo calor do molho, caiu no prato, para horror dos circundantes. Dias depois, na crítica que escreveu do restaurante, declarou, com sua costumeira criteriosa isenção que a comida era mesmo de grande classe, mas que não podia dizer o mesmo do serviço. O maitre e os garçons claramente não estavam preparados para lidar com emergências e mostravam uma lamentável insensibilidade com clientes portadores de doenças degenerativas, a julgar pela insólita cena que assistira enquanto jantava no restaurante, incógnito, e cujos detalhes pouparia ao leitor. Sua nota era sete.
Cuidado
Da série “Poesia numa hora dessas?!”
“Preciso” disse ele “evitar o estresse. Estou naquela idade em que, ao menor descuido, se envelhece”.
Domingo, 5 de janeiro de 2003.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.